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O “Corporate Governance” dos dados

Como qualquer Gestor atento e preocupado com as Organizações e pessoas sob sua responsabilidade, não podemos deixar de ignorar a evolução dinâmica que a Tecnologia tem assumido no Mundo, assim como, os impactos que decorrem dessa mesma Tecnologia para todos nós. Afinal, ganham-se e perdem-se eleições, constroem-se e destroem-se reputações, iniciam-se e terminam-se guerras. A base e a pedra basilar parecem ser sempre a mesma – os Dados!

Recordo-me dos meus tempos do final da década de 80 e inícios da década de 90, aquando das minhas primeiras interações relevantes com o Mundo Corporativo, ainda antes de sequer sonhar em que Universidade estudaria e que futuro académico me estaria destinado. Afinal de contas eu nunca fui um bom aluno...

Nessa altura, invariavelmente, as Empresas e os negócios eram fundamentalmente geridos por verdadeiros “Empreendedores” movidos por uma visão e, em alguns casos, uma “necessidade”, decorrente dos desafios que a própria vida ia impondo. Estes tempos eram definitivamente, assentes no maior peso que a “intuição” tinha no processo de tomada de decisão, ao invés da informação analítica que pudesse existir e apoiar essas mesmas decisões. Confesso, que ainda hoje, por vezes, eu sou “acusado” de apresentar dados analíticos, que contradizem as decisões baseadas em intuições, que os Acionistas ou Empreendedores pretendem levar a cabo.

Entretanto, o Mundo tornou-se global e complexo e consequentemente, as Empresas também. O “Corporate Governance” foi assumindo uma importância cada vez mais crescente nas Organizações. Aliás, as Boas Práticas Internacionais (se é que este termo faz sentido) impuseram a adoção de um conjunto de códigos nas Empresas que visavam dotar as Empresas, seus Gestores e Administradores, de um conjunto de comportamentos responsáveis, éticos e que pudessem contribuir, de forma direta, para que as Empresas e Organizações cumpram o seu objetivo último – acrescentar Valor aos seus Acionistas e à Sociedade em geral.

Os tempos evoluíram e passamos de um Sociedade baseada em comportamentos espontâneos e propensa a “erros”, para uma sociedade orientada por factos e evidências que norteiam o nosso dia-a-dia. Basta perceber a importância que o “Waze” tem hoje nas nossas vidas.

Neste contexto, importa então refletir como as Organizações/ Empresas se estão a adaptar, perante o valor que os dados trazem para as mesmas. É fundamental, que as Empresas e Organizações em geral sejam dotadas de uma abordagem holística e um plano de ações que permita implementar e medir, de forma adequada, o sucesso referente aos esforços analíticos que os dados impõem. Caso contrário, os mesmos em vez de traduzirem valor efetivo, poderão contribuir para um conjunto de decisões e ações ineficazes, no contributo das linhas orientadoras e objetivos traçados pelos respetivos conselhos de Administração ou Órgãos equivalentes.

O “Corporate Governance” deve responder de forma eficaz, a um conjunto vasto de questões básicas, como “quem” e “como” obtém, agrega e analisa os dados, revê os mesmos e a forma como “submete” para o órgão decisor, entre outras questões relevantes.

Em suma, importa definir desde logo, os códigos associados à cadeia de valor (espectro) das atividades, que contribuem para a recolha, análise e respetivo uso, que em última instância, permita apoiar os gestores no processo de tomada de decisão, em consonância com os objetivos traçados. Adicionalmente, este espectro das atividades deve também estar assente na determinação da responsabilidade e “ownership” de cada componente ao longo da cadeia de valor. Caso contrário, os dados em vez de acrescentar valor para a Organização, poderão tendencialmente destruir as mesmas ao permitir que as Empresas não atinjam os objetivos delineados.

Por outro lado, este novo “modelo” implica que as pessoas sejam dotadas de um conjunto de competências cada vez mais fulcrais como sejam o ceticismo, espírito critico, capacidade de adaptação e “reinvenção”, entre outras.

Concluindo, nada disto pode ser possível, sem que haja uma Liderança eficaz e adequada que permita esta transformação das Organizações para que estas sejam “orientadas” e estejam “assentes” em Dados - Afinal, ganham-se e perdem-se eleições, constroem-se e destroem-se reputações, iniciam-se e terminam-se guerras...

Tal como dizia Stephen Hawkins, “o maior inimigo do conhecimento não é a ignorância, mas sim a ilusão do conhecimento”.